domingo, 15 de maio de 2011

Diário de um haulee (surfista iniciante)

Diário de um haulee

Finalmente ia estrear minha fantástica nova prancha, feita na Califórnia pelo renomado top shapper Xanadu. Havia pesquisado tudo a respeito no Google e já sabia de antemão que uma marca de surfwear chamada oingoboingo ou coisa assim havia recebido sua visita e que havia sido um evento daqueles. Então eu estava equipado, tomei a calçada e fui descalço como um surfista no encalço do primeiro surfista de verdade que apareceu na minha frente.
Ao nos aproximarmos da praia, puxei conversa, tudo bom?  Sou o Silvio (procurei evitar o Sivuca pra fugir da mania de celebridade), parece que o mar está legal hoje hein? É mas vai melhorar segunda feira... ah, sou iniciante, espero conseguir subir na prancha, hehe pra cá, hihi pra lá, beleza, vai fundo olha lá até que tem umas ondas, estava fletchi de manhã.

Olhando para o mar, parecia bem regular, umas ondas aparentemente pequenas até, ideal para um preá, digo, haulee como eu. Havia aprendido o termo há poucos dias, foi o Junior que me ensinou.
Fiz uns alongamentos básicos e me atirei com minha fantástica nove pés sobre as ondas. Foi aí que começou a festa realmente. Procurei ir atrás dos outros surfistas que estavam entrando, parece que mais para a direita havia um canal de entrada, logo não alcançava mais o fundo e comecei a remar. Foi aí que começaram a aparecer as ondas, ou melhor, os tsunamis! Sim, porque a cada meia dúzia de esforçadas remadas, vinha uma torrente de água que me tirava o fôlego e me arrastava novamente para o raso, só não engolia mais água porque tinha de sobrar espaço para os peixes. Tentei, remei, tomei vários caldos e após a terceira tentativa já estava extasiado de cansado sem conseguir ultrapassar a rebentação.

Ao meu lado apareceu um gorducho, que parecia que tinha um motor ligado, e antes que eu pudesse perguntar qualquer bobagem, ele desapareceu no fundo imediatamente e eu lá me matando.
A água não estava exatamente quente, e somente na quarta tentativa consegui chegar no fundo, morto de cansaço. Um rapaz de uns 13 anos se aproximou e falou pra eu fechar as pernas e foi aí que entendi o motivo de minhas remadas parecerem tão pouco eficiente, eu usava os pés como âncora enquanto usava os braços como hélice... que lixo...

Olhei em volta e todos reinavam imponentes e másculos sobre suas pranchas, tentei fazer o mesmo e era como se equilibrar em uma corda bamba, eu ficava balançando tanto ou mais que o Lacraia quando era vivo, um arquétipo de humilhação flutuante, se é que aquilo era algum tipo de flutuação.
Então veio a onda, bem... a terceira onda, pois nas outras duas eu não tive tempo de fazer a curva. Então remei loucamente, a prancha desceu a ladeira vertiginosamente e pensei que aquele era o momento exato de ficar de pé, ao que estiquei a musculatura das costas, foi como levar um choque de 220V em cada linha de músculos e a dor só me permitiu uma ridícula posição de joelhos que não deu tempo nem pra foto, subi de um lado e caí do outro mergulhando até perto da entrada do reino submerso de Atlântida. Minha superprancha me puxava pelo pé insistindo para que decidisse por voltar a superfície e meus pulmões também acharam uma boa ideia, mas enquanto isso eu me debatia até que por fim consegui nadar para cima até emergir... a prancha de cabeça pra baixo, uma cabeçada nela, o fundo do oceano distante, os olhos ardendo... tentei novamente até que consegui subir na prancha e iniciar a remada de volta para o mundo dos surfistas. Não sei se foi obra de Netuno ou de Iemanjá, mas naquela hora o mar deu uma trégua e encontrei caminho livre para voltar para o fundo mais rapidamente. Inflei os pulmões e arranquei energia de algum wingover encubado e voltei a remar.
Nova onda, novo relâmpago muscular, novo caldo e lá fui eu para o rasinho tentar a sorte com castelinhos de areia.
As consequências não terminaram por aí, o excesso muscular foi tanto que me soltou o intestino e senti que se não voltasse correndo para a água resolver a situação, o vexame seria ainda mais vertiginosamente completo.
A volta para casa foi infernal, os três quarteirões até o apartamento transformaram-se em trinta e três, as pedrinhas das calçadas haviam sido afiadas meticulosamente e algumas velhas tentaram me atropelar com seus carrinhos de compras desviando violentamente e gritando "sai pra lá mano!".
Já em casa, entrei no chuveiro mais quente que pude conseguir e ali permaneci até cair o disjuntor.
Estou pronto para outra! Poderia estar fazendo alguma acrobacia pendurado na montanha bem em frente onde estava tentando sobreviver com minha prancha, mas aí já não seria um desafio, não é mesmo?